"O Japão e o vestibular"

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A convite do governo do Japão, o professor Rogério Forastieri da Silva, supervisor de História, Geografia e Inglês, visitou o país do sol nascente para estudar seu sistema educacional, quando teve a oportunidade de conhecer uma realidade muito diferente da brasileira, que dá sustentação para o fantástico desempenho tecnológico japonês. 


Um dado impressionante está na tabela abaixo, que mostra a proporção de matriculados no ensino médio (primeiro e segundo graus) em relação à população:
1950: 42,5% 
1960: 57,7% 
1970: 82,1% 
1980: 94,2% 
1990: 94,4% 

Um relato interessante que o professor Rogério trouxe é o de um estudante que conta a vida numa escola de segundo grau japonesa. Esse relato foi publicado pela International Society for Educational Information de Tóquio. Selecionamos a parte que diz respeito ao ingresso no ensino superior, tal como ele é visto da ótica de quem irá enfrentar o problema. Ela é muito interessante porque mostra uma visão de um estudante de um país totalmente diferente do nosso, mas que poderia muito bem ser a de um estudante de nosso país. 
"Num certo sentido, os duros exames vestibulares são um sintoma da igualdade social no Japão de hoje" . Por Knehide Seo, hoje da Universidade de Tóquio. 
Escrito quando era aluno do 2º grau - Shito Goraku: dar duro para passar 
 "Os exames de entrada na Universidade exercem forte influência, tanto na vida escolar como na vida familiar. Os requisitos para entrar nas universidades japonesas são severos. A expressão "shito goraku" significa "os que dormem só 4 horas por dia vão passar. Os que dormem 5 horas vão ser reprovados". A competição para entrada na universidade é muito feroz, além disso o sistema no Japão tem algumas anomalias.
Em países estrangeiros, incluindo aqueles nos quais o nome da universidade é considerado importante, o mais significativo está na qualificação que você atingiu e nas suas habilidades reais. Esses são os fatores que contam para o emprego. Na Alemanha, o nome da universidade que você fez é freqüentemente ignorado; portanto, não existe um ranking entre as universidades. Ou assim eu entendo. Mas a situação no Japão é totalmente diferente. No Japão, o mais importante está em qual universidade você se graduou. O que você estudou é secundário.
As diferenças entre o Japão e os países ocidentais se devem parcialmente às diferentes origens das universidades.
No Ocidente, a universidade é uma instituição desenvolvida a partir das guildas na Idade Média. Mas, no Japão, no último século, o governo estabeleceu universidades com o propósito definido de produzir pessoas qualificadas a exercer um papel de liderança no estado moderno. Esse estabelecimento da instituição universitária "de cima para baixo" foi acompanhado pelo sistema de escolas controlado centralmente e resultou na hierarquia de universidades. O aspecto hierárquico tornou-se muito marcante antes da Segunda Guerra Mundial. Os mais destacados da nação faziam universidades "imperiais" - Universidade Imperial de Tóquio e Universidade Imperial de Quioto - e dominavam os postos-chaves no governo e nos negócios. Um fenômeno semelhante ocorreu nas universidades particulares.
Após a guerra, novas universidades surgiram e seu número cresceu, mas a classificação hierárquica dessas instituições permaneceu inalterada. A Universidade de Tóquio, que sucedeu à Universidade Imperial de Tóquio, e a Universidade de Quioto ainda estão no topo das universidades do governo e a Universidade de Waseda e a Universidade de Queio permanecem no topo da hierarquia das universidades privadas.
Em parte devido a essa situação, o critério pelo qual os estudantes são contratados não é sua habilidade, mas sim de qual universidade eles vieram."
"Não é pequeno o número de estudantes que presta vestibular várias vezes para as universidades mais conceituadas" 
 "Atrás disso está a suposição de que os estudantes das universidades de primeira classe são todos superiores. Assim, os exames vestibulares são considerados muito importantes. Pode haver estudantes nas universidades de primeira categoria que não mostram nenhuma aptidão especial após o ingresso, e pode haver muitos estudantes de grande habilidade em escolas não tão consideradas. Entretanto, tais considerações são ignoradas. A menos que sejamos graduados de um pequeno grupo de universidades top-class, não seremos vistos como tendo capacidade de ser de uma elite verdadeira .
Conseqüentemente, com o peso da importância dada aos exames vestibulares, modelando nosso futuro e nele influindo, é imensa a pressão entre os estudantes do 2º grau para entrar em universidades de primeira linha como a Universidade de Tóquio ou a Universidade de Waseda. Tentando conseguir isso, os estudantes fazem cursinho ("cram schools") 3 a 4 vezes por semana (obs.: no Japão, os estudantes que fazem cursinho têm, além disso, que seguir um ritmo muito mais longo e intenso de aulas nas suas escolas de 2º grau). Não é pequeno o número de estudantes que presta vestibular várias vezes para as universidades mais conceituadas. Cerca de 50% dos que entram na Universidade de Tóquio prestaram vestibular mais de uma vez. [na Fuvest, 65% dos que entram já prestaram vestibular para valer antes]" 
"Nós vamos aos cursinhos e passamos noites estudando para suprir o que falta no currículo do curso de 2º grau" 
 "Eu acredito que uma outra razão pela qual os vestibulares tornaram-se tão difíceis é o hiato que existe entre o currículo das escolas de 2º grau e os padrões acadêmicos exigidos pelas universidades. O problema tem sido levantado com freqüência. O ponto central da questão é que as questões do vestibular estão além do nível dos estudos e preparação oferecido pelas escolas de 2º grau. As escolas de 2º grau estão sempre solicitando às universidades que limitem o uso de problemas e questões excessivamente difíceis. As universidades respondem que, sem alto padrão de exigência acadêmica, não se pode seguir a educação universitária adequadamente, e, portanto, o nível dos exames vestibulares não pode ser rebaixado ou simplificado. Cada lado tem seus argumentos, mas somos nós, os estudantes do 2º grau, que mais sofremos no final. Nós vamos aos cursinhos e passamos noites estudando para suprir o que falta no currículo do curso de 2º grau. E, além de tudo, ainda temos de estudar para nossos cursos regulares.
Em muitas universidades particulares, os exames vestibulares exigem Inglês, Língua e Literatura Japonesa, e Estudos Sociais, para os que vão para faculdades de Ciências Sociais ou Literatura [cursos de Humanas]. Os que vão para faculdades de Física e Ciências [cursos de Exatas] fazem exames de Inglês, Matemática e Física. "
"Os exames são divididos em duas fases. A primeira fase, aplicada no início de janeiro, é um teste geral para todos os candidatos." 
[fala das 7 matérias dos exames e das notas de corte] 
 "Mas as universidades nacionais e estaduais têm um sistema diferente. Os exames são divididos em duas fases. A primeira fase, aplicada no início de janeiro, é um teste geral para todos os candidatos. As matérias são Inglês, Matemática, Língua e Literatura Japonesa, mais duas provas em Ciências (tal como Física e Química) e duas de Estudos Sociais (História Geral e do Japão), somando um total de sete matérias. No começo de março são aplicadas as segundas fases dos exames, em cada universidade separadamente. Somente os que conseguem pontos acima de um certo total qualificam-se para a segunda fase dos exames. Essas notas de corte ("passing points") diferem de acordo com a universidade. A Universidade de Tóquio exige de 750 a 800 pontos, num total de 1000, para qualificar quem pode fazer a segunda fase. Diz-se que efetivamente o que é necessário são de 850 a 900 pontos. Comparados com os 600 pontos usuais, o padrão exigido é muito alto. O fato de que o teste de primeira fase exija 7 matérias é um grande fardo para nós. E isto é seguido por uma segunda fase mais difícil ainda."
Os duros exames vestibulares:
"sintoma da igualdade social no Japão de hoje" 
 "Apesar de tudo, como eu disse anteriormente, nós nos adaptamos a essa severidade. Afinal, sozinhos não somos nós que mudaremos a sociedade.
Além do mais, agora já não há classes com privilégios hereditários no Japão, e a mobilidade social é grande, tanto que mesmo uma pessoa de uma família pobre pode ser bem sucedida por seus próprios esforços. Num certo sentido, os duros exames vestibulares são um sintoma da igualdade social no Japão de hoje, pois mesmo os filhos do primeiro ministro ou do presidente de uma grande companhia não podem se tornar graduados pelas boas universidades sem estudo duro e esforço árduo. Numa sociedade em que os grandes esforços são reconhecidos e recompensados, devemos apoiar um certo grau de exigência e dificuldade." 
Tão longe, tão próximo (Carlos Bindi)
 É interessante notar que, com origens totalmente distintas, o vestibular brasileiro e o japonês tenham tantas semelhanças. Há as matérias em comum, há as duas fases, a primeira de pré-seleção e a segunda, específica. Há os pontos de corte. Os cursinhos. E, é claro, as angústias de quem vai ter de passar pelos exames são muito parecidas.
Mesmo o "hiato entre o segundo grau e os vestibulares", muitas vezes apontado como o espaço que faz surgir os cursinhos e as "cram schools", tem mais a ver com o que parece ser do que com o que efetivamente ocorre. Na verdade, no vestibular para os cursos mais atraentes há um enorme número de candidatos e um pequeno número de vagas para atendê-los. Isso gera uma forte concorrência e faz com que as pessoas procurem preparar-se da melhor forma possível para enfrentá-la. É essa concorrência e o elevado interesse pelas vagas que fazem as pessoas procurar cursos de aprofundamento e de preparação para as matérias dos exames.
Por que tamanha semelhança se a distância cultural que separa o sistema de ensino dos dois países é tão grande? Há um ponto em comum e ele é essencial.
A democratização do ingresso no curso superior existente no Brasil desde o começo do século é muito semelhante à do Japão. A transparência dos critérios de seleção, a existência de forte concorrência e a absoluta ausência de privilégios são fatores determinantes. Quem quer que tenha um certificado de segundo grau pode disputar uma vaga numa escola de sua preferência. O que se exige apenas é bom desempenho numa prova de conhecimentos de segundo grau. Tanto aqui, quanto lá.
As matérias são as mesmas nos dois sistemas porque são disciplinas fundamentais para a formação dos conhecimentos básicos de um cidadão do nosso tempo algo que é igual na América ou na Ásia. A fantástica coincidência de um exame em duas fases, sendo a primeira pré-seletiva, de conhecimentos gerais, e comum a todos, reflete uma mesma engenharia para resolver os problemas decorrentes de se ter de examinar muita gente. Uma "engenharia" para o vestibular que Brasil e Japão descobriram por vias completamente diferentes e que funciona muito bem.
O que existe a lamentar é que o vestibular - por ser um sistema aberto, de alta qualidade, que estimula o estudo e consegue promover maior igualdade de oportunidades sem retirar o papel do mérito - seja quase exceção no contexto educacional brasileiro,.
Infelizmente, não podemos ainda exibir os noventa e tantos por cento fazendo o segundo grau como pode o Japão. Mas isso é um problema, não um limite natural. Com todos os recursos materiais e humanos de nosso país há uma projeção segura que podemos fazer: quando estivermos caminhando para um nível de escolaridade assim alto (o que é socialmente possível, pois o Japão dobrou seu índice de escolaridade entre 1950 e 1970), nada irá impedir o Brasil de ser uma das mais importantes nações de nosso planeta.

Texto retidado de : http://www.vestibular1.com.br

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